Repensar o modelo de reciclagem de papel no Brasil
Por executivos da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap)
A reciclagem de papel e papelão no Brasil — responsável pelo processamento mensal de milhares de toneladas de material recolhido das ruas por catadores e também proveniente do comércio e da indústria — enfrenta um impasse econômico que ameaça a viabilidade de todo o setor.
Enquanto o país se consolida como uma potência mundial na produção de celulose, com matéria-prima cada vez mais abundante e competitiva, o custo para coletar, separar e transportar os resíduos recicláveis não para de subir. O resultado é uma equação financeira cada vez mais pressionada para aparistas, cooperativas e catadores.
A Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap) já demonstra preocupação com o futuro do setor caso não sejam adotadas medidas de estímulo à reciclagem. A tendência de longo prazo é clara: os custos logísticos devem continuar aumentando, pressionados pelo preço dos combustíveis, pela complexidade da coleta urbana e pelas deficiências estruturais da infraestrutura brasileira. Ao mesmo tempo, as cadeias produtivas de celulose tornam-se cada vez mais eficientes, reduzindo seus custos de fabricação e pressionando para baixo o preço das aparas. Mantida essa dinâmica, o modelo atual da reciclagem de papel no Brasil tende a se tornar economicamente insustentável.
O problema é estrutural. Historicamente, o modelo de negócio dos aparistas funcionava com margens sustentáveis: comprava-se o material, incorporava-se ao preço o custo da coleta, triagem e prensagem e revendia-se para a indústria. Hoje, porém, essa equação mudou. O aumento dos combustíveis, o trânsito cada vez mais congestionado nas grandes cidades, as estradas precárias e a pulverização dos pontos de coleta elevaram significativamente os custos operacionais. Como resultado, a margem praticamente desapareceu.
Ao mesmo tempo, o mercado não absorve reajustes. A indústria tem dificuldade em pagar mais pela matéria-prima reciclada, enquanto as fontes geradoras de resíduos — como supermercados, centros de distribuição e empresas — não estão dispostas a abrir mão da receita obtida com a venda dos recicláveis.
Diante desse cenário, torna-se inevitável repensar o modelo de financiamento da reciclagem.
Uma alternativa clara é a implementação efetiva de um sistema de créditos de logística reversa aliado à Responsabilidade Estendida do Produtor (REP). Esse modelo, já consolidado em diversos países europeus e previsto no Brasil desde 2023 pelo Decreto nº 11.413/2023, estabelece que as empresas responsáveis por colocar embalagens no mercado também participem do financiamento de seu ciclo de vida completo.
Na prática, isso significa que as marcas passariam a pagar pelos créditos de logística reversa gerados pela coleta e reciclagem de embalagens. Trata-se de um mecanismo já validado no setor de plásticos, onde passou a ter força de lei em outubro de 2025.
Nesse sistema, a cadeia da reciclagem passaria a contar com múltiplas fontes de receita: a venda do material reciclável, a remuneração pelo serviço de coleta e gestão de resíduos e a geração de créditos de logística reversa. Esse modelo traria maior previsibilidade financeira e ganhos de adicionalidade para recicladores, cooperativas e catadores, reduzindo a dependência exclusiva do preço das aparas.
Para que essa transformação ocorra, no entanto, será fundamental avançar na regulamentação do setor. A publicação de um decreto específico para o papel, instituindo a obrigatoriedade da logística reversa, seria um passo decisivo. Se no setor de plásticos essa agenda já avançou, é natural que agora se estenda também ao papel.
Diante da força e da eficiência da indústria de papel e celulose brasileira, competir apenas pelo preço da matéria-prima reciclada dificilmente será uma estratégia vencedora. As fábricas de embalagem sempre terão vantagem nessa disputa. O caminho mais racional é estruturar um modelo em que as marcas também participem do financiamento da logística reversa.
Além disso, esse novo arranjo permitiria separar duas atividades que hoje estão misturadas: o comércio de material reciclável e o serviço de gestão de resíduos. Gestores de resíduos, catadores e cooperativas poderiam ser remunerados pelo serviço de coleta e gestão, independentemente da compra e venda das aparas.
Um supermercado, por exemplo, dificilmente abrirá mão da receita que obtém hoje com a venda de recicláveis. No entanto, nada impede que ele passe a remunerar o serviço de coleta, já que uma coisa é o valor do material e outra é o serviço logístico necessário para viabilizar sua reciclagem.
Para os aparistas de papel, a discussão vai além da simples formação de preço. Trata-se de uma questão fundamental para a sustentabilidade de toda a cadeia.
Afinal, será que o caminho é apenas pressionar por preços maiores? Será que o preço, por si só, resolverá o problema?
A conta dificilmente fechará tornando o material reciclado artificialmente mais caro. O verdadeiro equilíbrio virá quando outros atores da cadeia — empresas que colocam embalagens no mercado, marcas que demandam esses materiais e os próprios consumidores — também assumirem responsabilidade pelos resíduos que geram.
Repensar o modelo da reciclagem não é apenas uma necessidade econômica. É um passo essencial para garantir que a economia circular funcione de forma justa, sustentável e viável no longo prazo.














