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Papelão ondulado: retomada do consumo deve se consolidar em 2024

Por Rafael Barišauskas, economista na Fastmarkets para América Latina

Embora o ano de 2023 tenha sido desafiador para o mercado de papelão ondulado no Brasil, há motivos para acreditar que 2024 trará uma retomada animadora para o setor. Os dados prévios divulgados pela Associação Brasileira de Embalagens em Papel (Empapel) apresentaram altas anuais nos três primeiros meses do ano, totalizando mais de 1 milhão de toneladas expedidas no período, acima das 953 mil toneladas expedidas no mesmo período do ano passado, conforme detalhado nas últimas edições do Latin America Pulp and Paper Monitor da Fastmarkets.

Os principais fatores por trás deste aumento são a melhora nas condições de consumo e o aumento nas exportações de alimentos, superando as expectativas do mercado para o setor. Além das principais condicionantes de demanda, as tendências de sustentabilidade e ESG – e que pautam as ações das empresas do setor e de end-users – também devem ser um fator de sustentação do mercado em 2024.

O consumo das famílias, geralmente condicionado ao nível de endividamento e renda além da trajetória da inflação e disponibilidade de crédito, vêm se fortalecendo no país desde o início do ano. Desde a metade de 2023, o nível de endividamento das famílias vêm caindo gradativamente, segundo dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), reflexo dos programas de renegociação de dívidas promovidas pelo setor público e privado, da inflação mais baixa, e da queda do desemprego desde o ano passado frente a 2022.

Assim, não é surpresa para nós que as vendas no varejo, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentaram forte crescimento em janeiro e fevereiro, alinhados com as projeções da Fastmarkets. Além das questões estruturais já ditas, varejistas brasileiros aumentaram o número de descontos e promoções em janeiro e fevereiro para reduzir os efeitos da queda sazonal das vendas no período após as festas de final de ano, cujo desempenho foi abaixo do esperado pelo setor.

Por fim, o setor brasileiro exportador de alimentos também tem registrado performance acima da esperada pela maior parte do mercado, suportando a expedição de papelão ondulado. O país exportou 60% mais alimentos no primeiro bimestre do ano na comparação anual, com crescimento de 8% nos embarques de proteína animal, e mais de 80% em alimentos processados. O aumento nos embarques tem sido favorecido pelo real mais fraco frente ao dólar vis-à-vis 2023 e pelo aumento na demanda externa.

A Fastmarkets está otimista em relação à expedição total de caixas, chapas e acessórios de papelão ondulado no país para 2024, que deve crescer 4,3% para cerca de 4.2 milhões de toneladas ao final de 2024, um novo recorde histórico, como mostrado nas últimas edições do Latin America Pulp and Paper Monitor e do Latin America Pulp & Paper 5-Year Forecast.

A combinação de condicionantes econômicas otimistas e a busca por soluções inovadoras pelas empresas do setor indicam um cenário promissor para a retomada do crescimento. Apesar da melhora no demanda, tanto do ponto de vista do consumidor final quanto de exportadores, ressaltamos que os riscos mapeados para o ano seguem se fortalecendo e podem prejudicar o desempenho do setor de papelão ondulado a partir do segundo trimestre.

A despeito do recuo no endividamento das famílias desde 2023, os dados mais recentes divulgados pelo CNC mostram estagnação desses níveis em patamares ainda historicamente altos, pior do que originalmente projetávamos, o que deve de alguma maneira limitar o consumo nos próximos meses. Ademais, a perspectiva de maior desvalorização do real frente ao dólar deve acabar se traduzindo em uma inflação ligeiramente mais acelerada ao longo de 2024, erodindo o poder de compra das famílias.

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Rafael Barišauskas

Rafael Barišauskas é economista na Fastmarkets e possui mais de 10 anos de experiência em projeções econômicas e análise de mercados de commodities da América Latina, como papel e celulose. O executivo atua com análises econômicas, ajudando stakeholders do setor a tomar melhores decisões. Em paralelo, leciona no Centro Universitário de Análise Econômica da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), na área de Análise da Cadeia de Valor do Agronegócio.

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