NotíciasReportagem especial

Integração, pessoas e o futuro tecnológico da conversão na América Latina

Representantes da Smurfit Westrock, Bignardi, Irani e Klabin debateram os desafios de integração da cadeia, o papel das pessoas na transformação tecnológica e as oportunidades que a impressão digital e a inteligência artificial abrem para o setor

O Painel de Papelão Ondulado encerrou a programação do Packaging Summit Latinoamérica 2026 com um debate que foi além dos números e mergulhou nos desafios operacionais, culturais e tecnológicos que definem o dia a dia de quem produz e converte papelão ondulado no Brasil. Moderado por Felipe Quintino, CEO do Nexum Group, o painel reuniu Edvandro Assoni, Diretor de Engenharia e Qualidade da Smurfit Westrock; Luís Teixeira, Gerente Industrial da Bignardi; Tiago Thomaz, Gerente Industrial da Embalagem Indaiatuba da Irani; e Alvim Jorge, Gerente Regional da Klabin. A conversa, marcada pela franqueza e por exemplos concretos do chão de fábrica, deixou claro que a indústria de papelão ondulado vive um momento de transformação acelerada em que tecnologia e capital humano são igualmente indispensáveis.

A COMPLEXIDADE DA INTEGRAÇÃO: DA FLORESTA À CAIXA DO CLIENTE

O painel abriu com uma provocação de Felipe Quintino sobre os desafios de integrar toda a cadeia produtiva, da fabricação do papel à entrega da embalagem. As respostas revelaram realidades distintas, mas complementares.

Edvandro Assoni situou a escala da operação da Smurfit Westrock: presente em 40 países, com mais de 4 mil colaboradores no Brasil, 9 fábricas de conversão e 6 máquinas de papel. Para ele, o maior desafio é extrair o máximo de eficiência de uma cadeia complexa que vai da fibra na floresta até a solução de embalagem entregue ao cliente. “A parceria com os fabricantes e com nossos times locais é o que nos permite avançar nessa cadeia”, afirmou.

Tiago Thomaz, da Irani, detalhou os desafios técnicos que surgem ao longo dessa cadeia. Da qualidade da matéria-prima (perfil de umidade, gramatura, testes de RCT e CMT) aos problemas de avaulamento e colagem na onduladeira, passando pela complexidade do setup na conversão, que envolve separar tinta, matrizes, formas e clichês. “Cada processo que não conhece o próximo gera uma complexidade enorme. Integração significa cada elo entender o elo seguinte”, resumiu.

Luís Teixeira trouxe uma perspectiva diferente: a Bignardi é produtora de papel sem conversão e opera com 100% de papel reciclado. A oscilação da matéria-prima exigiu um trabalho intenso de catalogação de fornecedores e educação da rede de suprimentos. A transição do papel gráfico para o reciclado trouxe desafios químicos significativos, especialmente no reuso de água, que demandaram proximidade constante com os fornecedores de químicos. “Nossa identidade é ser ecossistema: nos colocamos como donos da marca do nosso cliente e nos importamos com o produto final dele”, disse.

Alvim Jorge, da Klabin, adicionou a dimensão temporal da integração: a caixa trabalhada hoje nasceu de uma fibra plantada 7 a 15 anos atrás. “Toda a cadeia precisa ser desenvolvida com antecedência. Ter um sistema robusto e flexível só é possível estando integrado”, afirmou. Destacou o diferencial do Eukaliner, primeiro papel kraftliner do mundo feito 100% com fibra de eucalipto, como exemplo de como papel de alta qualidade na origem gera robustez em toda a cadeia. Com cerca de 200 mil itens de embalagem que podem ser demandados a qualquer dia, a Klabin precisa de máxima flexibilidade com setups rápidos e processos robustos. “O nome do jogo é excelência operacional: mínima variabilidade, máxima qualidade”, sintetizou.

PESSOAS NO CENTRO: O DESAFIO QUE A TECNOLOGIA NÃO RESOLVE SOZINHA

A segunda parte do painel foi talvez a mais reveladora. Quando Felipe Quintino perguntou como as empresas estão preparando seus times para um mundo cada vez mais automatizado e orientado por dados, os painelistas foram unânimes: a tecnologia é condição necessária, mas insuficiente.

Edvandro Assoni foi enfático: “Trazer tecnologia é fácil, basta ter dinheiro e comprar o equipamento. O difícil é fazer as pessoas conseguirem usar essa tecnologia, transformar dados em benefício para o negócio e para os clientes”. Segundo ele, a Smurfit Westrock mantém programas que reconhecem o desejo das pessoas de se capacitarem, e a mensagem do CEO global é constante: “People, people, people.”

Luís Teixeira, da Bignardi, trouxe uma dimensão prática do problema: o jovem não quer mais ir para a indústria. A empresa mudou o perfil de contratação, buscando regionalmente profissionais com raízes na comunidade e formando-os dentro de casa. O turnover nos escalões mais altos é baixo, com muitos colaboradores de longa data. A parceria com prefeituras, SENAI, SENAC, FIESP e CIESP tem sido fundamental para novos modelos de contratação.

Tiago Thomaz reforçou que as novas gerações cada vez menos querem empregos com responsabilidade de horário ou trabalho nos finais de semana. Na Irani, o caminho tem sido desenvolver internamente, com treinamentos e capacitações online, usando dados para acelerar a evolução dos colaboradores. “Precisamos mostrar aos colaboradores a importância da indústria para a sociedade e o quanto são essenciais nesse processo”, defendeu.

Alvim Jorge compartilhou a experiência da Klabin na planta de Piracicaba II, onde o desafio foi trazer pessoas para lidar com tecnologia de ponta em um setor acostumado a máquinas muito mecânicas. A empresa buscou internamente profissionais com vocação para Indústria 4.0, investiu quase um ano inteiro em treinamento, e enviou parte do time para visitar produtores no Japão, Alemanha, Suíça e Itália. Mas o dado mais impactante veio da aplicação de inteligência artificial: a Klabin implementou agentes de IA que conversam com os colaboradores e tiram dúvidas em tempo real. “De uma pessoa que antes detinha o conhecimento, chegamos a 17 a 18 mil pessoas consultando em tempo real”, revelou.

O FUTURO TECNOLÓGICO: IMPRESSÃO DIGITAL, IA INTEGRADA E A CAIXA PERFEITA

A parte final do painel olhou para frente. Questionados sobre as maiores oportunidades de evolução tecnológica nos próximos anos, os painelistas desenharam um cenário em que a digitalização da impressão, a inteligência artificial e a co-criação com clientes redesenham o setor.

Edvandro Assoni destacou que os novos equipamentos já chegam com tecnologia embarcada para a “caixa perfeita, zero defeito”, mas que a grande virada de chave para a Smurfit Westrock é a co-criação com o cliente. A empresa dispõe de um banco com mais de 800 mil projetos globais e opera Experience Centers onde o cliente pode trazer qualquer necessidade e a equipe projeta a solução utilizando IA, Machine Learning e Data Analytics. “Eficiência e sustentabilidade andam juntas: usar menos recursos é ser mais sustentável”, concluiu.

Luís Teixeira apontou que as tecnologias estão ficando mais acessíveis: equipamentos novos já chegam sensorizados com IA embutida e preocupação de eficiência energética. O contraste é visível na própria Bignardi, uma fábrica de 110 anos que opera com uma máquina centenária rodando com retrofit ao lado de uma planta nova e integrada. Destacou também a circularidade como vetor importante, com trabalho direto junto a quem gera a embalagem final para fechar o ciclo das aparas de volta à fábrica.

Tiago Thomaz reforçou que a evolução tecnológica é necessidade de sobrevivência, mas que só traz resultado quando os colaboradores sabem fazer as análises e colocar planos de ação em prática. “O que a gente falava como futuro há 5 ou 10 anos é a necessidade das empresas hoje para sobrevivência”, afirmou.

Alvim Jorge encerrou o painel com uma visão de futuro que conectou todos os fios da conversa. A impressão digital, ainda incipiente no setor globalmente, está prestes a chegar com força ao Brasil, trazendo uma camada de flexibilidade e agilidade sem precedentes: enquanto a produção de um clichê leva semanas, a impressão digital acontece em um segundo. Com a diversidade do mercado brasileiro, onde uma mesma impressora faz uma caixa para sabonete de e-commerce e na sequência uma caixa de carne de 30 quilos para a Europa, a sincronização entre demanda de mercado e operação se torna crítica. O cenário projetado por Jorge é ambicioso: os algoritmos de IA dos clientes integrados diretamente com os da Klabin, antevendo demandas em tempo real, e o portfólio crescendo de 200 mil para 400 mil SKUs, todos desenvolvidos na ponta com IA integrada.

Dados do setor sustentam esse otimismo. A demanda por papelão ondulado é sustentada de forma robusta pela cadeia de proteína animal, que absorve entre 30% e 35% do volume total produzido no país. Além disso, o papelão ondulado segue ganhando espaço como alternativa sustentável, substituindo materiais como plástico e madeira, tendência que se alinha às previsões dos painelistas sobre o crescimento contínuo do setor.

UMA INDÚSTRIA QUE SE RECONHECE NO ESPELHO

O Painel de Papelão Ondulado do Packaging Summit 2026 funcionou como um espelho para a indústria. Revelou uma cadeia produtiva que conhece suas fragilidades, investe em tecnologia com pragmatismo, valoriza suas pessoas com sinceridade e olha para o futuro com a clareza de quem sabe que a transformação não é opcional. Da integração entre floresta e conversão aos agentes de IA que multiplicam o conhecimento de um para milhares, o debate mostrou que a excelência operacional, como Alvim Jorge sintetizou ao longo do painel, não é um destino, mas uma rota. E a indústria brasileira de papelão ondulado está decidida a percorrê-la.

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