Incertezas no setor de embalagens afetam preços
Por executivos da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap)
O setor de embalagens, historicamente um importante indicador antecedente sobre o desempenho da economia, muito utilizado por especialistas para avaliar a atividade de um país, vive um momento de incertezas no Brasil, com a mudança do perfil do consumidor e um cenário desafiador neste segundo semestre.
A elevada taxa de juros e o “tarifaço” do governo americano criaram um quadro de retração na demanda por caixas de papelão e queda de preços das aparas marrons. Nos últimos dois meses, o valor do quilo de papel para aparas marrons caiu cerca de 10%, em um período em que tradicionalmente deveria ocorrer uma procura maior das fábricas visando as encomendas de fim de ano, nas datas festivas.
A procura por embalagens reflete a economia no futuro e mostra como será a atividade em um período de alguns meses. Com a Selic em 15%, sem perspectiva de queda no curto prazo, e o alto custo do crédito, há naturalmente um consumo menor por parte da população, com reflexos na demanda por papelão para embalagens.
Pesquisa recente divulgada em relatório do Banco Central mostra ainda que as populações de baixa renda, beneficiárias do Bolsa Família, transferiram R$ 3 bilhões às empresas de apostas, conhecidas como “bets”, por meio de pix em agosto deste ano. Esses recursos, não fossem as apostas, poderiam ir para o consumo, principalmente de alimentos, que utilizam embalagens na comercialização.
De acordo com o documento, a média gasta pelos beneficiários do programa social com as apostas no período foi de R$ 100. Dos apostadores, 4 milhões (70%) são chefes de família (quem de fato recebe o benefício) e enviaram R$ 2 bilhões (67%) por pix para as bets.
O quilo das aparas marrons caiu R$ 1,33 em junho para cerca de R$ 1,20 no início de agosto, conforme levantamento junto a associados da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap). Apesar da alta que as aparas tiveram no primeiro semestre do ano, as fábricas de papel apresentaram resultados relevantes em seus balanços, com margens EBITDA superiores a 30%, divulgados esta semana. Isso mostra que, mesmo com um preço mais alto das aparas, as indústrias conseguiram trabalhar com margens folgadas de lucro. A redução dos valores coincide com o mercado de celulose, que também experimentou entre maio e junho menor procura e consequentemente preços menores, respectivamente, R$ 5,09 e R$ 4,70 o quilo.
Além disso, o tarifaço do governo Trump que começou a valer neste mês de agosto e atinge vários produtos de exportação aos Estados Unidos, tende a afetar dois segmentos essenciais na busca por embalagens: a de frutas vendidas no mercado americano, grande consumidor dos produtos do Nordeste brasileiro, que tende a cair com o aumento das taxas nos EUA; e a de peças usadas na indústria de veículos, também vendidas no exterior por meio de caixas de papelão.
Outros segmentos do mercado dos EUA que compram produtos do Brasil, impactados pelas altas taxas impostas de importação por Trump, também podem prejudicar a demanda por embalagens no país.
As dificuldades no segmento têm um efeito negativo não apenas entre os aparistas de papel. Com a menor demanda e a redução dos preços, a coleta de papéis e papelão pelos catadores, cerca de 1 milhão em todo o país, também fica menos atraente, reduzindo a oferta.
Outro complicador no setor de embalagens ocorre em função do crescimento do e-commerce. Plataformas como Mercado Livre, Amazon e Magazine Luiza, além de aplicativos de delivery como iFood, Rappi e Uber Eats, experimentaram crescimentos exponenciais em seus volumes de transações e maior uso de embalagens. Esses segmentos em geral realizam uma embalagem adicional, quando preparam o produto para envio ao consumidor, o que não ocorria quando a compra era feita apenas diretamente no varejo, como supermercados e lojas, por exemplo.
O setor de embalagens continua sendo um importante indicador antecedente da atividade econômica no Brasil. No entanto, fatores estruturais recentes, como o crescimento do e-commerce e as mudanças no comportamento de compra, precisam ser considerados na análise desse indicador. Essas transformações trazem novas dinâmicas à demanda por embalagens e, mesmo em cenários de retração em alguns segmentos, podem gerar movimentos distintos dentro do próprio setor. Os aparistas de papel, que vinham nos últimos meses sendo beneficiados com a recuperação nos preços após fortes quedas em 2023 e 2024, podem agora ser impactados novamente por essas incertezas, sem solução no curto prazo.














