Endividamento das famílias e os limites do crescimento do consumo de papel no Brasil
Por Antonio Lemos, presidente da Voith Paper na América do Sul
Nos últimos anos, tenho conversado com muitos clientes, parceiros e colegas sobre os movimentos que vêm moldando o nosso setor. E tem um tema que aparece em todas as mesas, formais ou informais, e que não dá mais para ignorar: o peso do endividamento das famílias brasileiras e como ele afeta o consumo, inclusive o de papel.
A verdade é que os números falam alto. Hoje, cerca de 80% das famílias no Brasil têm algum tipo de dívida, e quase um terço já está inadimplente ou comprometendo mais da metade da renda com pagamentos. Em média, 30% do orçamento das famílias está indo só para quitar dívidas, o maior nível em quase dois anos. E mais: 15,9% das pessoas já se declaram “muito endividadas”.
E por que isso importa para nós? Porque quando o orçamento aperta, o consumo é o primeiro a ser ajustado, e isso reverbera em toda a cadeia produtiva, inclusive na de papel e diretamente no papel de embalagem.
Os segmentos mais sensíveis ao humor da economia já sentem isso de forma mais direta. Embalagens acompanham o ritmo do varejo; papéis para impressão e escrita acompanham o investimento e a publicidade. Se a renda cai e o crédito não ajuda, esses mercados respondem imediatamente.
O tissue é um capítulo à parte. Por ser essencial, ele resiste mais, mas mesmo aí a gente vê o consumidor migrando para opções mais econômicas. Já os papéis especiais e premium ainda seguem estáveis, mas sabemos que, em um cenário de recessão mais profunda, eles podem sentir também.
O efeito combinado disso tudo é uma estagnação no consumo per capita de papel no Brasil, que permanece na casa dos 60 kg por habitante ao ano. Um número que não reflete o nosso potencial real: estamos abaixo da média latino-americana, e bem distantes dos níveis dos países desenvolvidos.
Ou seja: não é que o mercado brasileiro não tenha espaço para crescer. Ele tem, e muito. Mas hoje, o que limita esse crescimento não é o papel em si, mas a capacidade de compra das famílias.
E aqui faço um registro pessoal: toda essa análise eu aprendi observando as explicações do economista Rafael Barisauskas, que tem a generosidade de traduzir movimentos macroeconômicos complexos em algo claro, direto e conectado com a realidade do consumo no Brasil. Esse olhar ampliado me ajuda a interpretar melhor os sinais do nosso mercado.
Enquanto renda, crédito e endividamento não se reequilibrarem, o mercado interno tende a operar em modo defensivo. Isso significa foco em eficiência, margens, custos e resiliência.
Mas também significa outra coisa: uma oportunidade de reforçarmos o papel estratégico do setor. Como líderes dessa indústria, temos duas tarefas essenciais. A primeira é apoiar nossos clientes agora, ajudando-os a ganhar competitividade mesmo num cenário desafiador. A segunda é preparar o terreno para capturar as oportunidades que virão quando a economia virar, porque ela vai virar.
O Brasil tem vocação para crescer em papel, inovar e subir a régua do valor agregado. Mas para esse potencial aparecer de verdade, precisamos de famílias com mais fôlego financeiro. Só assim o consumo interno vai destravar de vez.
Até lá, seguimos com estratégia, eficiência e visão global. E, acima de tudo, com a confiança de que ciclos econômicos mudam, e quem está preparado colhe primeiro.














