Automação, pressão de custos e o futuro dos investimentos na indústria de embalagens de papel
CEOs e diretores de Ibema, Papirus, Cartonifício Valinhos e Klabin debatem os desafios operacionais, a transformação tecnológica e as perspectivas de investimento para um setor sob pressão inédita

O Painel de Executivos encerrou o primeiro dia do Packaging Summit Latinoamérica 2026 com uma das conversas mais densas e reveladoras do evento. Moderado por Felipe Quintino, CEO do Nexum Group, o debate reuniu Nilton Saraiva, CEO da Ibema; Amando Varella, Co-CEO e Diretor Comercial e de Marketing da Papirus; Fernando Celani, Diretor do Cartonifício Valinhos; e Alvim Jorge, Gerente Regional da Klabin. Juntos, os quatro representam uma fatia significativa da cadeia de produção e conversão de embalagens de papel no Brasil — e a leitura que trouxeram ao palco foi ao mesmo tempo realista e carregada de visão estratégica.
UM ANO QUE COMEÇOU AQUECIDO
O diagnóstico inicial foi unânime: 2026 começou com indicadores positivos, especialmente no papelão ondulado, mas uma sucessão de fatores externos transformou o otimismo em cautela. Fernando Celani, do Cartonifício Valinhos, abriu o painel descrevendo um cenário de resiliência na atividade, mas com desafios que se intensificaram rapidamente. “O conflito trouxe nervosismo forte em torno de aumento de custos — frete, produtos com relação ao petróleo, cavaco com pedidos de aumento”, relatou. A decisão do Supremo sobre a tributação de PIS e COFINS sobre aparas — principal matéria-prima do setor — adicionou mais uma camada de pressão, com pedidos de reajuste em torno de 10%.
Alvim Jorge, da Klabin, corroborou a leitura. Segundo ele, o ano começou acima das previsões em papel, mas a empresa foi rapidamente impactada por guerra, mudanças regulatórias e pressão de custos. O frete, em especial, tornou-se um desafio para uma indústria que trabalha com produtos leves e de grande volume. “Nosso produto é muito leve, e transportar isso gera um desafio enorme”, pontuou.
Nilton Saraiva, da Ibema, trouxe uma perspectiva complementar pelo lado do papel cartão: embora a dinâmica das gráficas — clientes diretos do segmento — não esteja ruim, o excesso de capacidade vindo da China torna o cenário mais difícil. “Já temos uma boa retrospectiva de 2026 antes de terminar o primeiro trimestre — e ainda não aconteceu tudo que pode acontecer. Muita emoção pela frente”, disse.
Amando Varella, da Papirus, conectou os dois mundos. Apesar de papelão ondulado e papel cartão serem mercados paralelos — caixas de papelão ondulado frequentemente levam caixinhas de papel cartão —, a demanda forte no corrugado ainda não se refletiu no cartão. “O consumo aparente de papel cartão no Brasil decresceu no ano passado, enquanto a importação cresceu. Competir com papel importado chinês, pelo preço que chega, é muito difícil”, afirmou.
AUTOMAÇÃO E DIGITALIZAÇÃO: O CAMINHO PARA ABSORVER OS CHOQUES
Quando Felipe Quintino direcionou o debate para o que vem gerando resultado nas operações, a resposta foi clara: automação, digitalização e melhoria contínua como estratégia integrada.
Alvim Jorge detalhou como a Klabin opera em dois mundos na conversão: unidades mais novas onde o papel entra na onduladeira e chega ao cliente sem contato humano, com automação total; e unidades mais antigas em processo de atualização. As reclamações de qualidade, segundo ele, caíram para níveis de PPMs — métrica típica da indústria automobilística. “A integração entre papel de alta qualidade e conversão automatizada entrega uma precisão que permite ao nosso cliente automatizar também a linha de embalagem dele”, explicou. Além disso, destacou o papel da digitalização combinada com melhoria contínua: com dados no pé da máquina, o ciclo de melhoria se comprime enormemente, e o próprio líder do equipamento faz ajustes ágeis em tempo real. “Somando eficiência de 1% aqui, 2% ali, entregamos a competitividade que precisamos para absorver os impactos externos”.
Dados do setor reforçam a relevância dessa busca por eficiência. Segundo um estudo da McKinsey & Company sobre o futuro do setor de papel e celulose, tecnologias como automação, análise de dados e inteligência artificial podem reduzir custos operacionais em até 15% e melhorar a eficiência geral de equipamentos em até 5 pontos percentuais.
Amando Varella destacou que, na Papirus, o driver mais importante não é apenas a máquina, mas trazer as pessoas junto com as modificações — que são, antes de tudo, modificações de cultura. “Investimos muito no desenvolvimento de liderança. As pessoas precisam entender o que estamos fazendo para que a melhoria de custo aconteça de verdade”, disse.
Fernando Celani reforçou essa linha e trouxe uma reflexão que ampliou o debate para além da fábrica. Relatou o caso de um auxiliar de produção que deixou a empresa dizendo que o trabalho era sujo, perigoso e barulhento — e que depois foi encontrado entregando pizza, em condições semelhantes, mas com sensação de liberdade. “Precisamos nos vender melhor para atrair os jovens para o ambiente fabril. Não é só um problema brasileiro — é um desafio global”, alertou.
EXCELÊNCIA OPERACIONAL: DO CHÃO DE FÁBRICA AO C-LEVEL
Nilton Saraiva fez uma intervenção importante. Segundo o CEO da Ibema, a empresa voltou a falar com intensidade em excelência operacional — “basicamente fazer o feijão com arroz bem feito” — e está conduzindo um trabalho de transformação cultural com consultores especializados.
Mas o ponto mais marcante foi seu contraponto: às vezes, o problema não está no chão de fábrica, e sim no C-Level. Saraiva relatou que o pessoal de manutenção da fábrica da Ibema em Turvo, no interior do Paraná, instalou 450 sensores na máquina por conta própria e apresentou um trabalho de manutenção preditiva com som e vibração. “O problema não está sempre no chão de fábrica — às vezes está no C-Level, que precisa entender o que a tecnologia é capaz de fazer”, provocou.
Para ele, eficiência operacional vai muito além da máquina produzindo: passa por como a empresa contabiliza, calcula custo e integra dados. “Qualquer centavo conta”, resumiu. Saraiva revelou que faz reuniões quinzenais com o time de TI — “não dá para esperar 30 dias para ver os projetos deles” — e que nos últimos dois anos surgiram projetos que impactam toda a empresa.
INVESTIMENTOS: ENTRE A DESALAVANCAGEM E A PREPARAÇÃO PARA O FUTURO
A última parte do painel abordou os investimentos no pipeline para os próximos dois anos, revelando estratégias distintas que refletem o porte e o momento de cada empresa.
Nilton Saraiva fez o anúncio mais impactante da noite: a Ibema adquiriu parte dos negócios da BO Paper, operação ainda em análise pelo CADE. O objetivo é avançar na cadeia produtiva para trás — ter domínio melhor da confecção da fibra. Saraiva contextualizou a decisão com uma leitura geopolítica: a empresa tem estudado o que aconteceu com aço, painel solar e carro elétrico para antecipar o que pode acontecer com papel cartão diante do avanço chinês. “O resultado da Stora Enso e da Ahlstrom é um show de horror — causado pela invasão da China na Europa Ocidental”, disse. A Ibema também lançou há três anos a Ibema Florestal, com parte da base florestal já montada.
Amando Varella manteve o foco nos nichos: substituição do plástico por papel cartão com barreira, desenvolvimento do Papirus Circular — modelo em que a empresa recolhe embalagens, traz aparas e produz nova embalagem para o end-user — e automação da máquina para melhoria de custo. “É uma visão menos abrangente, mas é o que conseguimos enxergar para uma empresa do nosso tamanho num mercado tão competitivo”, reconheceu.
Fernando Celani relatou que o Cartonifício Valinhos acabou de realizar uma reforma grande na máquina de papel e, a curto prazo, foca na reforma do preparo de massa, melhoria da logística interna e integração de dados entre fábricas.
Alvim Jorge, da Klabin, situou a empresa em um momento de colheita após um ciclo de investimentos de grande porte. A Klabin investiu R$ 12,9 bilhões na instalação das máquinas de papel MP27 e MP28 no Projeto Puma II, além de quase R$ 2,5 bilhões na conversão. Com alto grau de alavancagem, o foco até o final do ano é desalavancar, com investimentos menores em desgargalamentos e melhorias pontuais. “Num horizonte de 12 meses, chegando à alavancagem adequada, poderemos anunciar novos grandes investimentos. Temos plantas com infraestrutura para segunda linha — o Cerrado da Klabin nasceu preparado”, afirmou.
Jorge encerrou com uma leitura de tendências que deu amplitude ao debate: sustentabilidade seguirá puxando papelão ondulado; o e-commerce no Brasil ainda está nos primeiros estágios e tem potencial de triplicar em cinco a dez anos; e a impressão digital na embalagem vai gerar um ciclo de investimento em tecnologia que o Brasil ainda não viu. “Embalagens mudam a cada dois, três meses — o importado não consegue acompanhar. Essa é a barreira natural que temos que construir”, concluiu.
O RETRATO DE UMA INDÚSTRIA EM TRANSFORMAÇÃO
O Painel de Executivos do Packaging Summit 2026 revelou uma indústria que enfrenta pressões simultâneas de custo, oferta global e mudanças regulatórias, mas que responde com automação, inteligência de dados, transformação cultural e visão estratégica de longo prazo. Se o Painel de Papel Cartão realizado mais cedo no mesmo dia expôs os desafios de competitividade do segmento, o Painel de Executivos ampliou a conversa para o nível da gestão e dos investimentos.














