As notícias sobre a morte do papel foram amplamente exageradas
Por José Carlos da Fonseca Jr., Embaixador, Presidente-Executivo da EMPAPEL e do Advisory Committee on Sustainable Forest-Based Industries (ACSFI) da FAO
Com a explosão tecnológica e o avanço da digitalização mundo afora nas últimas décadas, não era incomum ouvir dizer que o fim do papel estava próximo. Jornais, revistas, livros, folhas A4, cadernos eram alguns dos itens familiares que estavam sendo substituídos por computadores, tablets, smartphones, Kindle, entre outros dispositivos.
A verdade, porém, é que a indústria de base florestal é resiliente. Sempre orientada pela inovação, aliada à sustentabilidade, diversificou seu portfólio. A celulose, por exemplo, a partir dos consistentes avanços da celulose solúvel e da nanocelulose, hoje é matéria-prima utilizada em incontáveis — e impensáveis — subprodutos, com aplicações em sorvetes, tintas, pneus de alta performance, armações de óculos, pastas de dente, tecidos, entre muitas outras. A árvore cultivada para fins industriais é, de fato, uma verdadeira biorrefinaria.
Aliado a isso, vivemos um tempo em que a sociedade já não aceita mais itens que agridem e poluem o meio ambiente. Nessa jornada, é inegável: as embalagens são as principais responsáveis por contrariar os mais pessimistas prognósticos sobre a longevidade do papel.
Desde minha chegada à Empapel, no fim de 2023, tenho buscado aprofundar conhecimentos e identificar tendências nesse mercado. Assim, em 2024 estive na principal feira gráfica do mundo, a DRUPA, realizada em Düsseldorf, na Alemanha, e, neste ano, fui a Madrid participar da Fruit Attraction, uma das principais feiras internacionais dedicadas a frutas, verduras e legumes. Ademais, temos visitado e participado de inúmeros eventos dentro do país.
Durante esse período, pude constatar duas verdades que são comuns no mundo todo: existe uma corrida por embalagens sustentáveis, eficazes e que transmitam valor de marca; junto a isso, as embalagens de papel, claramente, estão assumindo cada vez mais o protagonismo nos estandes de feiras e nas gôndolas de supermercados planeta afora.
Por seus diversos atributos, elas têm se consolidado, globalmente, como uma das principais opções de empresas usuárias e consumidores. Alguns fatores que reforçam essa constatação:
Ambientalmente amigáveis: no Brasil, 100% da fibra virgem vem de árvores plantadas, colhidas e replantadas para essa finalidade, comumente em áreas antes degradadas. Portanto, têm fonte renovável; são biodegradáveis, de fato, em pouco tempo; e são altamente recicladas.
Resistentes: para cada necessidade, há uma embalagem de papel adequada para suportar peso, rasgo e impacto. Do papel-cartão ao papelão ondulado, são diferentes especificações para atender a diferentes demandas. Atualmente, o papelão ondulado é usado por mais de 20 segmentos distintos da atividade industrial.
Inovadoras: investimentos permanentes em P&D têm possibilitado desenvolver barreiras celulósicas capazes de acondicionar líquidos e óleos. A Biona, da Melhoramentos, é um exemplo que vale ser mencionado. A partir da polpa moldada, foram desenvolvidas embalagens que podem ir ao freezer e/ou ao forno, sem película plástica, mantendo a qualidade dos alimentos e a firmeza da embalagem. Para o pós-uso, a companhia indica compostagem completa em até 75 dias.
Comunicativas: a partir do avanço da digitalização, as impressões, até mesmo em papelão ondulado, passaram a ser mais detalhistas. Além disso, com o advento de ferramentas como a Inteligência Artificial, é possível realizar impressões personalizadas em uma mesma linha, em um processo de real descomoditização. O que antes podia ser percebido como uma mera necessidade, agora é visto como um meio de transmissão de valor de marca.
Parafraseando Mark Twain, escritor americano que certa vez disse que “as notícias sobre minha morte foram amplamente exageradas”, não tenho dúvida em afirmar que “as notícias sobre a morte do papel foram amplamente exageradas”. Ao contrário, trata-se de um processo em curso, cujo ápice ainda não pode ser avistado, o que nos indica haver enorme horizonte para vislumbrarmos avanços, seja no mercado doméstico, seja no internacional. E a indústria de embalagens de papel brasileira está pronta para protagonizar este momento, à altura do que dela espera o consumidor. A versatilidade é a melhor garantia de que a embalagem de papel, sempre se reinventando, é mesmo a alternativa natural.













